Bicos-de-papagaio avermelharam: inverno. #flower #instapaper #igersbrasil

Bicos-de-papagaio avermelharam: inverno. #flower #instapaper #igersbrasil

Dr. John encontra John Winter em especial para tevê. O bluesman albino morreu ontem aos 70 anos. Uma figura gentil que pouco se importava com o mito criado à sua volta. 

Joe Williams, uma das grandes vozes do jazz descobertas por Count Basie.

Long-play forever; vynil# LP#

Long-play forever; vynil# LP#

No rastro de Chet Baker

Por Ranulfo Pedreiro

Todo mundo sabe que Chet Baker enfrentava sérios problemas com o uso frequente de substâncias químicas. Sua trajetória nas drogas o levou a diversas prisões, além de um espancamento que acabou com seus dentes.

Assim, em 12 de maio de 1988, Chet está tocando novamente, após acostumar a embocadura do trompete à dentadura, que insiste em machucar a gengiva.

Após curta temporada em Roterdã, ele viaja para Amsterdã. À noite, tem um show com o saxofonista Archie Shepp.

Mas a dependência química novamente o arrasta a um bairro marginal da capital holandesa, onde Chet compra heroína. Ele entra no primeiro hotel com vagas, o Prins Hendrik, arranja um quarto no segundo andar e usa a droga.

Então o trompetista se debruça à janela para observar um dos canais de Amsterdã. E subitamente despenca para a morte.

Desde então, uma dúvida paira sobre o mundo do jazz: Chet Baker caiu, jogou-se ou foi empurrado (afinal, havia dívidas com traficantes)?

É o ponto de partida do livro No rastro de Chet Baker, romance policial de Bill Moody com incrível capacidade de retratar os cenários do jazz. Moody é baterista e crítico de música. Seu principal personagem, Evan Horne, é um pianista encrenqueiro, quase um detetive. Horne precisa desvendar os últimos passos de Chet Baker para descobrir o paradeiro de um amigo desaparecido.

O melhor da trama, bem amarrada, é que Horne não é um investigador de ação, mas um músico excessivamente curioso. Como Bill Moody conhece tudo de jazz, as narrativas de Evan Horne ao piano traduzem muito do universo musical, especialmente o que ocorre em um palco.

A tradução é de Roberto Muggiati, curitibano radicado no Rio de Janeiro e colaborador da Gazeta do Povo. O livro saiu em 2002 no Brasil pela Jorge Zahar – e já chegou baratinho aos sebos.

P.S.: O exemplar que me caiu nas mãos pertence ao amigo Marcos Cesar Gouvea, o Marrom – que logo deu a dica.

Cannonball Adderley, o grande sopro do jazz que deixou Miles Davis tão encantado a ponto de incluir-lhe no conjunto que gravaria Kind of blue. Cannonball aliava a destreza do bebop a um conhecimento profundo de blues e soul. Podia ser tão forte e destruidor quanto sutil e delicado.

Dizem que quando Adderley chegou a Nova York, foi ao Café Bohemia, onde o contrabaixista Oscar Petiford tocava com seu grupo. Quando percebeu o saxofonista, Pettiford embalou uma desconstrução alucinada de I’ll remember April, justamente com o intuito de mandar o novato para casa. Mas Cannonball entrou na música com tanta facilidade que a comunidade do jazz nova-iorquino, por um bom tempo, não falou de outra coisa. É o que conta Ashley Kahn no livro Kind of blue - História da obra prima de Miles Davis

Restaurante Rejupe #Londrina #Brasil #igersbrasil

Restaurante Rejupe #Londrina #Brasil #igersbrasil

O jazz espiritual de Nicola Conte

Por Ranulfo Pedreiro

Nicola Conte é um multi-homem do jazz italiano, cabeça efervescente do cenário da cidade de Bari (destino litorâneo e turístico do sul da Itália) e criador do selo Schema Records – que já abrigou Paolo Archenza e Quintetto X. No Brasil, é conhecido por revelar a cantora carioca Rosália de Souza no disco Garota Moderna, lançado pelo Schema em 2002. Além da bossa nova, Nicola ainda alimenta paixões pelo acid jazz, trilhas de filmes dos anos 60 e free jazz.

O título de seu novo disco, Free Souls, dá a dica: Nicola busca um jazz mais profundo, algo espiritual. Uma proposta capaz de unir o jazz modal ao soul, funk e ao samba jazz. Uma estética retrô que ganha sedimentação na voz, capaz de reunir grandes cantores em uma unidade composicional que suplanta os diferentes caminhos.

Produtor, DJ e instrumentista, Nicola é um pesquisador musical. Conhece, portanto, os terrenos onde pisa, especialmente os fronteiriços e pantanosos, onde as definições de gênero costumam perder o sentido.

Tudo isso poderia soar hermético e obtuso, caso Free Souls não fosse tão transparente quanto sólido. Nicola Conte busca os confins da alma para transcender a consciência – algo tentado com bons resultados por John Coltrane, Ahmad Jamal e Yusef Lateef – mas sem abandonar o clima um tanto festivo do acid jazz. Afinal, muitos festejos da cultura afro-americana estão associados a questões metafísicas.

O pianista Ahmad Jamal e o multi-instrumentista Yusef Lateef são homenageados textualmente em Ahmad’s Blues (com a cantora americana Melanie Charles), e A prayer for Lateef (uma rara instrumental em um disco pautado pelo canto).

Há reviravoltas, porém: Shades of Joy começa com um tema em ostinato ao piano – bem ao estilo do jazz modal –, criando clima para a voz leve e abaritonada de Marvin Parks. É uma canção para cima, até radiofônica. Parece facilmente descomplicar a proposta do álbum.

Goddess of the sea é mais quebrada, tende ao ritmo e suas síncopes, mantendo os metais dialogando com a voz espetacular de Jose James. A faixa título entra cheia de groove, combinando com a interpretação meio Motown de Bridgette Amofah. Eis o funk/soul dando as caras, alcançando um toque mais sessentista em Ode to Billie Joe. E ruma ao acid jazz com Soul Revelation, levada pela cantora Tasha’s World (codinome da holandesa Natascha Slagtand). É uma sequência de faixas difícil de desgrudar os ouvidos.

Aos poucos, a música brasileira vai se sobressaindo – às vezes meio dura no ritmo –, até à bossa nova explícita de Sandália Dela, cantada em português pela britânica Heidi Vogel. Então o disco vai retornando ao jazz modal com liberdades harmônicas e a volta de Marvin Sparks em African other blues, até alcançar uma introspecção à John Coltrane em Sunrise.

São vários os caminhos de Free Souls, surpreendentes e interligados. Mas o conjunto arredonda-se na busca de uma música transcendental, com um resultado que não dificulta a vida do ouvinte. Profundo e leve. Nicola Conte é um criador em plena evolução.

Serviço

Free Souls, de Nicola Conte. O CD pode ser encontrado em serviços de streaming (Deezer e Spotify) ou na Amazon (MP3 a US$ 9 ou vinil a US$ 50 na loja dos EUA) – um bom aperitivo gratuito está no SoundCloud da Schema Records (soundcloud.com/schema-records/nicola-conte-free-souls-album).

 

Walter Smetak, um filósofo do som.