Os ombros são curvados, as roupas amarrotadas. A voz, rouca e até enfraquecida, às vezes se sobrepõe em momentos de firmeza. O Lincoln de Daniel Day-Lewis, que estreia amanhã nos cinemas do Brasil – e de Londrina – com a chancela de Steven Spielberg, apresenta o 16º presidente dos Estados Unidos acaipirado e atormentado por dúvidas, intuitivo até, mas cuja retidão de caráter acaba por fortalecer o mito.
Lincoln gosta de contar histórias e piadas, tem simpatia pelos negros – aqui o termo pejorativo nigger, ao contrário do Django Livre de Tarantino, não provocou qualquer polêmica –, está perto do povo e longe do aspecto severo e resoluto imortalizado nos livros de história, embora a semelhança seja uma das qualidades do filme. Eis que, humanizado, demonstrando fisicamente as consequências de pressões e embates, Lincoln torna-se personalidade factível, crescendo em heroísmo.
Bom até a medula, mas nem sempre correto, o presidente enfrenta discussões de relacionamento com a instável, porém sensata esposa (Sally Field) – acusada de insanidade –, e não hesita em esbofetear o filho na ilusão de afastá-lo do alistamento. É um Lincoln capaz de ceder os mapas estratégicos da Guerra Civil Americana para o filho menor brincar, e que mantém um luto constante, pedra de gelo na alma, pela morte de outro filho no conflito.
Nesse contexto, Lincoln enfrenta a oposição dos democratas para aprovar a 13ª emenda, que liberta os escravos dos EUA. O fim da escravidão levaria, por consequência, ao desfecho da Guerra Civil. Mas resta a dúvida: como manter a unificação de um país com economia e cultura eminentemente escravocratas?
Eis o presidente enfrentando lobbies ruralistas, democratas conservadores – os republicanos aparecem como verdadeiros visionários –, preconceitos e mais um sem número de tramoias e negociatas. Mas prossegue, quase suicida, na inabalável retidão de seus objetivos. São praticamente 150 minutos desnudando os intrincados bastidores políticos da América do século 19.
Como a história é particularmente complexa, o roteiro não deixa espaços em branco. Amarra tudo em competentes diálogos, orquestrando para que a mão de Spielberg conduza os sentimentos, contidos na maior parte do filme, mas extravasados nos momentos em que a partitura de John Williams cresce em compassos lacrimosos.
A linearidade da narrativa evita ousadias e lembra a Via Crúcis – o sofrimento de Lincoln aumenta conforme os acontecimentos se fecham em perigoso cerco, até que a redenção vem acompanhada pela morte.
Capaz de acabar com a guerra e a escravidão, unificando um país rachado, o presidente humanizado de Spielberg acaba por reafirmar o mito. Tecnicamente impecável, emotivo e heroico, Lincoln é talhado para o Oscar, como reafirmam suas 12 indicações.